sábado, 30 de julho de 2011

Querido, estou-me a lixar pró degradée!

Quando eu tiver uma casa...digo, uma casa só minha, não vão existir naprons, panos, com bicos ou sem bicos, nem velas aromatizadas que jamais serão acendidas. Os castiçais, os potes, os papeis de parede serão banidos! Não haverá qualquer preocupação em combinar cores frias e quentes. Afirmo ainda que não vou ter especial cuidado e até, pudor, em juntar padrões distintos e inconciliáveis. Não aderiremos aos degradées, dispensaremos os abajours, marquises, biblots e quaisquer outros francesismos efeminados com que nos queira brindar. Na minha casa, os objectos serão dispostos levianamente, sem rigor milimétrico. As coisas estarão onde der mais jeito para as usar. Por cá, não se admitirão contemplações, estudos de cor, comparações ou dicas de decoração. Os quadros não serão paisagens desconhecidas e longíquas. Queremos quadros, mas que nos pertençam. Os gatos irão refastelar-se onde bem entenderem. A cozinha não terá potes onde não se guarda nada. A bancada vai ser usada como bancada, num gesto de absoluta rebeldia, e não como mostruário de peças decorativas inúteis. As fotografias serão coladas na parede e não colocadas em porta-retratos infinitos que se mudam conforme a cor do sofá. Não teremos revistas que ninguém lê. Os livros estarão arrumados com uma ordem específica, ainda a negociar. Não guardaremos um piaça dentro de um recipiente em loiça pintada porque é um grande contra-senso e gerará grandes dúvidas para os seus utilizadores. As estantes serão sítios onde se guardam coisas e não vitrines de um museu de antiguidades. Os copos de cristal e as loiças mais caras não se destinarão a ocasiões especiais porque isso é estúpido. Teremos retratos que poderão ser embaraçosos para os retratados. Não viveremos obcecados com a simetria e a proporcionalidade. Somos pelo torto, pelo desalinhado, mas útil, real e vivido. A minha casa não vai ser um sítio para se mostrar aos outros em busca de elogio fácil. A minha casa vai ser aberta a quem eu quiser. Quando olharem para ela, vão pode dizer, sem qualquer margem para dúvida, que ali mora Sara Garcia.