segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

´Tão vô?

- Então vô?
- Agora anda-se assim só de collants?
- São leggins.
- Pois sim.

Eu podia vir aqui falar do meu avô da forma enternecida que é exigida quando falamos de idosos. Mas isso não é para mim. O meu avô é espanhol, mas viveu em França durante muito tempo. Falar com ele ao telefone é uma epopeia. Foi contrabandista de café durante a guerra civil espanhola e, parecendo que não, isso dá muito estilo. Não está patareco, mas às vezes troca os nomes. Hoje, passas os dias a ver corridas de cavalos e quando a gente lhe pergunta quem é que está a ganhar, ele responde “o que vai à frente!” e assim se passa um bom momento familiar. Para o meu avô existem, essencialmente, três classes de filhos da puta: os médicos, os advogados e claro, os políticos. Os jogadores da bola são elevados à categoria de “gândulos”. O meu avô consegue dizer sempre a coisa mais inconveniente no momento menos oportuno e isso é um dom. Não consigo deixar de me rir por dentro em jantares de família. Está naquela fase em que se lixa para o que os outros pensam. Para ele, todos os dias é dia de gaspacho: é só juntar dois papo-secos à refeição. Só vê notícias na TVE e estoira a reforma toda em caramelos espanhóis e em cavalos, que conseguem ser sempre mais teimosos do que ele. Não sei que idade é que ele tem, sou péssima com datas. Qualquer dia, morre. Antes de isso acontecer, era bom ficasse a saber que gosto dele. Um dia destes digo-lhe. Pode ser que ele me mande para algum sítio em castelhano.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Direito

Jovem! Se pretendes iniciar o curso de Direito ou se já lá estás, eis algumas sugestões para alcançar o sucesso:

Tenta explicar a uma criança de 5 anos o significado da palavra "inimputável" e como poderá usá-la para convencer os pais de que pode partir coisas à vontade.

Sempre que surgir nas notícias o caso Maddy ou outro igualmente mediático não hesites em dar o teu parecer jurídico, preferencialmente, diante de toda a família. Vai dar um ar de sabedoria e quem sabe não chegas a autarca em Santarém.

Recomenda-se ainda o uso frequente de expressões em latim. Mesmo que não saibas o que significam, impressionam e isso é o essencial. A inclusão de um "Maxime" ou de uma "prima facie" pode muito bem salvar uma frase absolutamente disparatada. O que também calha sempre bem é o recurso a expressões germânicas e referências ao Direito alemão. Para os mais distraídos, podem sempre mencionar nomes de jogadores da Bundesliga porque o efeito será semelhante.

Quando a vossa família vos solicitar informações de carácter jurídico, do tipo "Como é que eu faço para deserdar a tua prima? E pra me divorciar do teu tio?", não se comprometam. Cruzem as mãos, façam um ar sério, mas, ao mesmo tempo, consternado e digam apenas: a Doutrina diverge. É a saída perfeita para todo o tipo de questões embaraçosas e provavelmente nem sequer é mentira porque a Doutrina diverge sobre quase tudo.

Na resolução de um caso prático, deves incluir sempre expressões esclarecedoras, extraídas directamente do Código, como: casamento putativo, pacto leonino, impugnação pauliana, casamento rato, sociedade em comandita, entre outros. Para além de serem expressões giras, dão, a quem as profere, aquele ar de conhecimento.

Se fores uma rapariga, aproveita para informar os teus pais que tens um concepturo dentro de ti...só para veres a reacção. E o que é uma concepturo? É um ser ainda não concebido nem nascido. Ah, então tá bem...No fundo, é uma queca que ainda não foi dada.

Passeia-te com o teu Código Civil por todo o lado, inclusivamente nas saídas à noite. Se alguém tentar violar-te ou tirar-te um rim, podes tentar arremessar o CC ao teu agressor ou ler-lhe a parte referente à formação do negócio jurídico. Garanto que perde logo a vontade.

Se ainda assim, com todas estas dicas, descobrires que não tens particular talento para o Direito nem para mais nada, não há razões para preocupações. Afinal, podes sempre tentar a tua sorte numa biblioteca ou livraria jurídica. Tens é que gostar de passar metade do teu expediente no facebook, senão não consegues o emprego.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Comunicação

"O acto de comunicar é a materialização do pensamento em signos conhecidos pelas partes envolvidas. Estes símbolos são então transmitidos e descodificados/reinterpretados pelo receptor. O acto de comunicação pode recorrer a diversos meios e linguagens, mas o seu objectivo é sempre transmitir uma mensagem."

Eu adoro ir no metro a observar as pessoas, tentando apreender as mensagens que elas emitem. Há o rapaz da crista, phones nos ouvidos, calças justas pretas, camisa às riscas, punk's not dead. Está a dizer "A minha mãe só me vestia roupa de marca em criança. Vê no que eu dei." A rapariga de pé, muito segura de si, fato cinza impecável, segura a pasta com firmeza, mexe no cabelo com impaciência. Se olharmos bem para ela, percebemos que ainda não tem 30, mas é preciso fazer algum esforço. Aquelas duas sentadas junto à porta existem em qualquer estação de metro. Loiríssimas, vozes anasaladas, a cara de um tom castanho alaranjado. Usam malas enormes, as botas da moda, mascam pastilha e mexem nervosamente nos telemóveis enquanto falam uma com a outra sobre uma terceira, que, segundo consta, é uma pêga e já despachou metade dos gajos da faculdade de Economia. As pitas, mesmo atrás de mim, falam muito alto e todas ao mesmo tempo. Só consigo perceber a frase que mais repetem "Ya, a stora foi uma porca!" Vão para o Colombo experimentar a Bershka inteira em 3 horas.
Depois há o casal exibicionista. Um clássico. Ele segura a mão dela enquanto entram na carruagem e assim permanecem durante toda a viagem como gémeos siameses. Ninguém sabe onde acaba um e começa o outro. A língua dela já fez uma vistoria completa ao esófago dele e ainda só passámos uma estação.
A senhora idosa, muito bem posta, cabelo bem armado, maquilhagem discreta, enrolada numa encharpe, do El Corte Inglês na certa, olha por cima dos óculos em sinal de desaprovação. O metaleiro, de pé, junto à porta, cabelo comprido e barba, está tão envolto num livro da Anne Bishop que não dá conta de nada.

S. Sebastião: estação terminal

Eu lembrei-me de escrever isto por causa da aula de Análise do discurso jurídico e também por causa do video da música "For what it's worth" dos Placebo, em que se colocam etiquetas às pessoas em várias situações. Eu gosto muito de observar pessoas. Penso que todos nós colocamos rótulos nos outros, mediante as comunicações que recebemos deles. Por vezes, pode ser injusto, redutor e gerar preconceitos, mas acho que este exercício é quase inconsciente. Não acho necessariamente mau termos ideias pré-concebidas das pessoas, que se entranham em nós, através de actos de comunicação. Acho verdadeiramente mau quando essas ideias não nos permitem ver mais nada e tomamos a nossa interpretação da comunicação que recebemos como infalível.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O Gato

No Domingo passado, durante um jantar de anos, alguém me contava uma história de uma amiga que mandou o veterinário arrancar as garras do seu gato porque, segundo ela, lhe davam cabo do chão e dos móveis de casa. Acrescentava ainda que o tal veterinário oferecia outros serviços como o corte da cauda ou das extremidades das orelhas. Pergunta: MAS ESTÁ TUDO DOIDO?
Um gato sem garras já não é um gato. É qualquer outra coisa, mas não um gato. Há quem opte por ter um gato porque, aparentemente, combina com a decoração da casa. No entanto, não esperam que ele se comporte como um gato.
Eu tenho um gato. Chama-se Spike. O Spike tem muita manha,aparece sempre onde não é suposto, ignora-nos quando não quer ouvir, às vezes mia às 5h da manhã para lhe abrirem a janela porque gosta de ver os pássaros, deita-se em cima dos meus livros, rói coisas em plástico, vomita bolas de pêlo, saltita por cima de mim para eu acordar, quer estar ao meu colo sempre que estou ocupada, mas nunca vem quando eu o chamo, mexe nas teclas do pc, deita o meu telemóvel ao chão quando ele vibra, desenrola o papel higiénico só porque acha graça, afia as garras em sítios onde não deve e até já entornou capuccino para cima dos meus apontamentos de Micro prai dois dias antes do exame. Ter um gato é isto tudo, é uma espécie de pacote. Com aquele ronronar adorável vem sempre o ter que limpar a porcaria mal-cheirosa que ele faz, o ter que o aturar quando não se está com paciência, sentir que ele se está a lixar para o que dizemos e por aí fora. Eu adoro o meu gato. Assim como veio, todo o pacote.
Não entendo as pessoas que decidem ter um gato para depois o tentarem transformar em qualquer outra coisa. É como se lhe dissessem "És giro e felpudo, mas tenta ser menos...gato!" Acho que deviam optar por peixes de plástico, combinam melhor.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

A idade da parvoíce

Quinze anos. Eu era toda certezas. Ouvia música da cena, tinha as minhas meias às riscas, padrão Freddy Krueger, dizia "chavalo", ninguém me podia parar. Era aquela miúda irritante que estava convencida que iria salvar o Mundo. Batia-me por causas tão nobres como a alteração das datas dos testes ou o fim das aulas de Estudo Acompanhado. Eu era contra o poder instituído, fosse lá isso o que fosse. Eu não sabia qual era a diferença entre o Primeiro-Ministro e o Presidente.
"Pai, quem é que manda mais?"
"É o Primeiro-ministro."
"É isso que eu quero ser."
Eu queria era mandar. Hoje sei que tenho pouco talento para a política. Não sou suficientemente cínica para chegar ao topo.
Naquele tempo (expressão mesmo à pensionista), éramos estupidamente felizes. Jogávamos basquet até cair pro lado, o Orçamento de Estado não interessava para nada, fascismo era só uma palavra dificil de escrever e o Samurai X é que devia pôr ordem nisto tudo. Nos anos 90, a Tv não era tão medíocre (ok, havia o Big Show Sic...), passavam os X-men aos sábados de manhã, os miúdos nem sabiam o que eram telemóveis, os penteados eram rídiculos, mas a Manuela Moura Guedes ainda parecia deste planeta. Eu vivia feliz na minha ignorância.