- Então vô?
- Agora anda-se assim só de collants?
- São leggins.
- Pois sim.
Eu podia vir aqui falar do meu avô da forma enternecida que é exigida quando falamos de idosos. Mas isso não é para mim. O meu avô é espanhol, mas viveu em França durante muito tempo. Falar com ele ao telefone é uma epopeia. Foi contrabandista de café durante a guerra civil espanhola e, parecendo que não, isso dá muito estilo. Não está patareco, mas às vezes troca os nomes. Hoje, passas os dias a ver corridas de cavalos e quando a gente lhe pergunta quem é que está a ganhar, ele responde “o que vai à frente!” e assim se passa um bom momento familiar. Para o meu avô existem, essencialmente, três classes de filhos da puta: os médicos, os advogados e claro, os políticos. Os jogadores da bola são elevados à categoria de “gândulos”. O meu avô consegue dizer sempre a coisa mais inconveniente no momento menos oportuno e isso é um dom. Não consigo deixar de me rir por dentro em jantares de família. Está naquela fase em que se lixa para o que os outros pensam. Para ele, todos os dias é dia de gaspacho: é só juntar dois papo-secos à refeição. Só vê notícias na TVE e estoira a reforma toda em caramelos espanhóis e em cavalos, que conseguem ser sempre mais teimosos do que ele. Não sei que idade é que ele tem, sou péssima com datas. Qualquer dia, morre. Antes de isso acontecer, era bom ficasse a saber que gosto dele. Um dia destes digo-lhe. Pode ser que ele me mande para algum sítio em castelhano.
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