quarta-feira, 10 de março de 2010

Comunicação

"O acto de comunicar é a materialização do pensamento em signos conhecidos pelas partes envolvidas. Estes símbolos são então transmitidos e descodificados/reinterpretados pelo receptor. O acto de comunicação pode recorrer a diversos meios e linguagens, mas o seu objectivo é sempre transmitir uma mensagem."

Eu adoro ir no metro a observar as pessoas, tentando apreender as mensagens que elas emitem. Há o rapaz da crista, phones nos ouvidos, calças justas pretas, camisa às riscas, punk's not dead. Está a dizer "A minha mãe só me vestia roupa de marca em criança. Vê no que eu dei." A rapariga de pé, muito segura de si, fato cinza impecável, segura a pasta com firmeza, mexe no cabelo com impaciência. Se olharmos bem para ela, percebemos que ainda não tem 30, mas é preciso fazer algum esforço. Aquelas duas sentadas junto à porta existem em qualquer estação de metro. Loiríssimas, vozes anasaladas, a cara de um tom castanho alaranjado. Usam malas enormes, as botas da moda, mascam pastilha e mexem nervosamente nos telemóveis enquanto falam uma com a outra sobre uma terceira, que, segundo consta, é uma pêga e já despachou metade dos gajos da faculdade de Economia. As pitas, mesmo atrás de mim, falam muito alto e todas ao mesmo tempo. Só consigo perceber a frase que mais repetem "Ya, a stora foi uma porca!" Vão para o Colombo experimentar a Bershka inteira em 3 horas.
Depois há o casal exibicionista. Um clássico. Ele segura a mão dela enquanto entram na carruagem e assim permanecem durante toda a viagem como gémeos siameses. Ninguém sabe onde acaba um e começa o outro. A língua dela já fez uma vistoria completa ao esófago dele e ainda só passámos uma estação.
A senhora idosa, muito bem posta, cabelo bem armado, maquilhagem discreta, enrolada numa encharpe, do El Corte Inglês na certa, olha por cima dos óculos em sinal de desaprovação. O metaleiro, de pé, junto à porta, cabelo comprido e barba, está tão envolto num livro da Anne Bishop que não dá conta de nada.

S. Sebastião: estação terminal

Eu lembrei-me de escrever isto por causa da aula de Análise do discurso jurídico e também por causa do video da música "For what it's worth" dos Placebo, em que se colocam etiquetas às pessoas em várias situações. Eu gosto muito de observar pessoas. Penso que todos nós colocamos rótulos nos outros, mediante as comunicações que recebemos deles. Por vezes, pode ser injusto, redutor e gerar preconceitos, mas acho que este exercício é quase inconsciente. Não acho necessariamente mau termos ideias pré-concebidas das pessoas, que se entranham em nós, através de actos de comunicação. Acho verdadeiramente mau quando essas ideias não nos permitem ver mais nada e tomamos a nossa interpretação da comunicação que recebemos como infalível.

3 comentários:

  1. Tava num site sem identificação.

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  2. ahahha muito bem! fartei-me de rir, ainda bem que nao fui para direito, não tinha essas noções básicas. Simples, directa e eficaz!

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